Roy e Silo, dois pingüins do Zôo do Central Park, são completamente
devotados um ao outro. Inseparáveis, juntos há quase seis anos, vocalizam
um para outro, entrelaçam seus pescoços, fazem sexo. São pingüins gays.
Certa época ficaram tão desesperados para chocar um ovo, que rolaram um
pedra para o ninho. O tratador Rob Gramzay acabou por dar a eles um ovo,
que eles chocaram cuidadosamente por 34 dias até que Tango, uma fêmea, nascesse.
Tango foi carinhosamente alimentada e aquecida por Roy e Silo por dois meses
e meio até se tornar independente. "Eles fizeram tudo direitinho", conta
Gramzay.
Roy e Silo não são exceções. O zôo tem outro casal gay, Milou e Squawk,
e teve duas fêmeas, Georgey e Mickey, que também tentaram chocar um ovo.
Os cientistas têm evidências de comportamento homossexual em todo o reino
animal e esses dados agora estão alimentando o debate sobre a questão na
sociedade americana às voltas com questões que vão desde o casamento gay
até as leis contra a sodomia. Se o homossexualismo ocorre entre animais,
significa que é natural para seres humanos também? Se o homossexualismo
não é uma escolha, mas resulta de forças naturais que não podem ser controladas,
pode ser imoral?
A discussão aberta sobre a homossexualidade dos animais é recente. "Havia
uma certa timidez cultural em admiti-la", diz Frans de Waal, um dos mais
importantes primatologistas do mundo, que detonou um debate em 1997 ao lançar
seu livro sobre bonobos, primatas que são parentes muito próximos do homem,
com enorme energia sexual. Em cativeiro ou na floresta, quase todos são
bissexuais e metade de suas relações sexuais são com bonobos do mesmo sexo.
As fêmeas têm relações com outras fêmeas de hora em hora. Antes do livro,
pesquisadores raramente mencionavam o assunto. "Eles mostravam fotos das
fêmeas tendo relações e na legenda escreviam que eram muito afetuosas."
Em 1999, Bruce Bagemihl publicou outro livro, relatando que comportamentos
homossexuais tinham sido observados em 450 espécies. O trabalho foi citado
no caso Lawrence versus Texas, que contestou a lei anti-sodomia. Bagemihl
diz que, embora esse comportamento seja observado em cativeiro, é muito
mais comum no hábitat natural dessas espécies. Entre 10% e 15% das fêmeas
de gaivotas são homossexuais. Ocasionalmente, elas têm relações com machos,
mas voltam para a companheira para pôr e chocar seus ovos.
Jovens golfinhos são famosos pelas atividades homossexuais em cativeiro
ou no mar. Machos e fêmeas de macacos rhesus também. Esses comportamentos
em animais vêm sendo registrados desde 1700, mas poucos livros foram escritos
sobre o tema. Tudo porque os pesquisadores temem o preconceito e as suspeitas
sobre sua sexualidade.
Os cientistas, porém, dizem que o fato de animais exibirem comportamento
homossexual não significa que seja geneticamente determinado. "A gente pensa
que os animais são pura biologia e genética, mas não são", diz Bagemihl.
Mas não dá para extrapolar para seres humanos. O que esses estudos mostram,
porém, é que sexualidade é um termo bem mais abrangente do que se gostaria
de pensar.
"A gente tem essa idéia de que o mundo animal é certinho, um mundo católico
conservador em que os animais só fazem sexo com vistas à reprodução", compara
Marlene Zuk, professora de biologia da Universidade da Califórnia.
As fêmeas de bonobo, por exemplo, têm relações mesmo fora de seu período
fértil. "Sexo é muito mais do que fazer bebês. E não há motivo para surpresa.
Nós também somos animais", diz.
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