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  ARTIGOS
Luiz Mott: Jesus era gay?
02/04/2004
gaybrasil.com -

Primeiro: para começo de conversa, convém lembrar que há sérias dúvidas quanto à existência histórica de Jesus de Nazaré. Ninguém sabe como ele era: se feio ou bonito, se usava barba ou não, se de olho azul e cabelo liso dourado como costuma ser representado, ou morenão de cabelo crespo como muitos nativos do oriente médio. Não há nenhum objeto histórico deixado por Cristo: o Santo Sudário (existe mais de uma dezena deles!) é uma fraude, as lasquinhas de sua Santa Cruz se reunidas todas equivaleriam a uma floresta, suas "verdadeiras relíquias" foram fabricadas na Idade Média. Os próprios Evangelhos, a principal fonte informativa sobre Jesus, estão cheios de contradições: um diz que ele morreu ao meio dia, outro às 3 horas; sua genealogia em Lucas e Mateus são discordantes. A fé é sempre um passo no escuro. E nunca vi ninguém remover montanha alguma só com a fé!

Segundo: se dermos crédito aos relatos dos quatro evangelistas, podemos detectar diversas passagens da biografia ou do mito de Cristo que permitem identificá-lo muito mais com a cultura gay do que com a dos machos heterossexuais. Alguns exemplos: um judeu chegar aos 33 anos sem se casar colocava sérias dúvidas sobre sua masculinidade; Jesus é delicado demais para o padrão machista de seu tempo: "olhai o lírio dos campos...", "deixai vir a mim as criancinhas..." são expressões muito mais próximas da cultura gay do que de machões; o gesto de lavar os pés dos discípulos, na última ceia, jamais seria realizado por macho algum, pois era atividade exclusivamente feminina (e atenção: Jesus mandou que seus discípulos seguissem seu exemplo, ordem explícita em favor da androginia!) ; a relação de Jesus com Maria Madalena, Marta e Maria e com as demais mulheres que o seguiam, lembra mais a relação dos gays com mulheres-simpatizantes, sem envolvimento sexual, do que a relação dos homens heterossexuais com as filhas de Eva.

Terceiro: Jesus tinha uma relação especial, uma amizade particular com João Evangelista, reconhecido pelos apóstolos como "o discípulo que Jesus amava". Quando se conheceram João tinha mais ou menos 15 anos, Jesus 30. Tão íntima era essa relação que na última ceia, João estava reclinado no peito de seu divino Mestre. As primeiras representações desta cena mostram Jesus e os discípulos deitados (e não sentados, como o imortalizou Leonardo da Vinci). Estar deitado, reclinado no peito de Jesus, é intimidade que dificilmente um macho judeu se permitiria há dois mil anos passados. Tem mais: algumas horas depois deste idílio - onde tomaram vinho e cearam, Jesus e os discípulos passam a noite no Horto das Oliveiras. Quando chegam os soldados para prender Jesus, Judas o beija - gesto delicado comum entre homens da época. Neste instante, diz o Evangelho de Marcos, que no meio da noite, um discípulo saiu correndo nu, deixando cair o lençol que o envolvia. Cena estranha e comprometedora essa de um acompanhante próximo de Jesus estar sem roupa, e fugir enrolado apenas num lençol. Onde tem fumaça tem fogo!

Quarto e último argumento: não sou o primeiro a levantar a lebre de que Jesus provavelmente era homossexual. O historiador Giovanni Dall'orto, encontrou diversos sodomitas italianos do século XVI que foram denunciados à Inquisição por terem dito exatamente isto: que Jesus era homossexual. O escritor Marlowe, contemporâneo de Shakspeare, também defendeu que Jesus e João Evangelista mantiveram relação amorosa. Eu próprio encontrei no Arquivo da Torre do Tombo, em Lisboa, a denúncia contra Gregório de Matos, o maior poeta brasileiro barroco, o qual, nos finais do século XVII ousou dizer que "Nosso Senhor Jesus Cristo era sodomita". Diz o manuscrito que o Boca do Inferno teria usado uma palavra vulgar corrente na época, provavelmente disse que o Filho de Deus era "fanchono" ou "puto" - dois termos populares sinônimos de sodomita. Há outros casos registrados no Santo Ofício de pessoas no Brasil e em Portugal, que disseram que Jesus e os apóstolos eram gays.


Portanto, ao celebrar no ano 2000 o segundo milênio do nascimento de Jesus Cristo, seria esta uma excelente oportunidade para o movimento homossexual internacional reivindicar nossa participação nesta festa maravilhosa, pois há mais de 500 anos os homossexuais reivindicam Jesus como membro de nossa confraria. Claro que vai haver muito escândalo e protesto, negativas, contestações e até vingança. Temo mesmo que haja reações violentas dos cristãos mais fundamentalistas, que para defender a heterossexualidade de Cristo, serão capazes de atacar os homossexuais - como aconteceu no episódio de Zumbi.

Deixar, contudo, passar o milênio sem provocar esta discussão, seria perder fantástica oportunidade para um debate em nível mundial sobre o respeito à homossexualidade, pois se outros deuses, como Zeus e Oxalá, entre tantos outros, eram andróginos ou praticantes do homoerotismo, qual o problema se Jesus, o Filho de Deus, também fosse adepto do amor dos deuses? Dai aos gays o que é dos gays!
E se Jesus estivesse vivo, se perguntasse a ele de que lado gostaria de ficar, do lado dos machões ou do lado das criancinhas e dos lírios do campo, não tenho dúvida que ficaria da nossa banda, do lado dos gays!



Sobre o autor

Luiz Mott, paulistano de nascimento, mineiro de criação é Cidadão de Salvador por decreto municipal. Doutor em Antropologia, estudou na USP e na Sorbonne, lecionou na Unicamp, é professor na Universidade Federal da Bahia. Autor de uma dezena de livros sobre Inquisição, homossexualidade, Aids, religião e escravismo, entre eles O Sexo Proibido; Rosa Egipcíaca: uma santa africana no Brasil; A cena gay em Salvador em tempos de Aids. Foi o primeiro gay assumido a ser condecorado como Comendador da Ordem do Rio Branco.

Sobre o livro Crônicas de um Gay Assumido

Neste livro de crônicas, parte da Coleção Contraluz, Luiz Mott, o "decano" do movimento gay do Brasil, reconstitui o abrangente painel da homossexualidade. Misturando experiências pessoais com o afinado olhar do antropólogo, do militante e fundador do Grupo Gay da Bahia, o autor desvela hipocrisias, preconceitos e dá uma lição de resistência à sociedade brasileira. Em Crônicas de um Gay Assumido, Mott desvenda mitos e verdades sobre o mundo gay, as tribos sexuais, faz confidências e promove discussões sobre homofobia e homoerotismo com a grife, o humor, a ousadia e a sinceridade de um pioneiro do movimento gay no Brasil. Clique aqui para comprar o livro

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