Primeiro:
para começo de conversa, convém lembrar que há sérias dúvidas
quanto à existência histórica de Jesus de Nazaré. Ninguém
sabe como ele era: se feio ou bonito, se usava barba ou
não, se de olho azul e cabelo liso dourado como costuma
ser representado, ou morenão de cabelo crespo como muitos
nativos do oriente médio. Não há nenhum objeto histórico
deixado por Cristo: o Santo Sudário (existe mais de uma
dezena deles!) é uma fraude, as lasquinhas de sua Santa
Cruz se reunidas todas equivaleriam a uma floresta, suas
"verdadeiras relíquias" foram fabricadas na Idade Média.
Os próprios Evangelhos, a principal fonte informativa sobre
Jesus, estão cheios de contradições: um diz que ele morreu
ao meio dia, outro às 3 horas; sua genealogia em Lucas e
Mateus são discordantes. A fé é sempre um passo no escuro.
E nunca vi ninguém remover montanha alguma só com a fé!
Segundo:
se dermos crédito aos relatos dos quatro evangelistas, podemos
detectar diversas passagens da biografia ou do mito de Cristo
que permitem identificá-lo muito mais com a cultura gay
do que com a dos machos heterossexuais. Alguns exemplos:
um judeu chegar aos 33 anos sem se casar colocava sérias
dúvidas sobre sua masculinidade; Jesus é delicado demais
para o padrão machista de seu tempo: "olhai o lírio dos
campos...", "deixai vir a mim as criancinhas..." são expressões
muito mais próximas da cultura gay do que de machões; o
gesto de lavar os pés dos discípulos, na última ceia, jamais
seria realizado por macho algum, pois era atividade exclusivamente
feminina (e atenção: Jesus mandou que seus discípulos seguissem
seu exemplo, ordem explícita em favor da androginia!) ;
a relação de Jesus com Maria Madalena, Marta e Maria e com
as demais mulheres que o seguiam, lembra mais a relação
dos gays com mulheres-simpatizantes, sem envolvimento sexual,
do que a relação dos homens heterossexuais com as filhas
de Eva.
Terceiro:
Jesus tinha uma relação especial, uma amizade particular
com João Evangelista, reconhecido pelos apóstolos como "o
discípulo que Jesus amava". Quando se conheceram João tinha
mais ou menos 15 anos, Jesus 30. Tão íntima era essa relação
que na última ceia, João estava reclinado no peito de seu
divino Mestre. As primeiras representações desta cena mostram
Jesus e os discípulos deitados (e não sentados, como o imortalizou
Leonardo da Vinci). Estar deitado, reclinado no peito de
Jesus, é intimidade que dificilmente um macho judeu se permitiria
há dois mil anos passados. Tem mais: algumas horas depois
deste idílio - onde tomaram vinho e cearam, Jesus e os discípulos
passam a noite no Horto das Oliveiras. Quando chegam os
soldados para prender Jesus, Judas o beija - gesto delicado
comum entre homens da época. Neste instante, diz o Evangelho
de Marcos, que no meio da noite, um discípulo saiu correndo
nu, deixando cair o lençol que o envolvia. Cena estranha
e comprometedora essa de um acompanhante próximo de Jesus
estar sem roupa, e fugir enrolado apenas num lençol. Onde
tem fumaça tem fogo!
Quarto
e último argumento: não sou o primeiro a levantar a lebre
de que Jesus provavelmente era homossexual. O historiador
Giovanni Dall'orto, encontrou diversos sodomitas italianos
do século XVI que foram denunciados à Inquisição por terem
dito exatamente isto: que Jesus era homossexual. O escritor
Marlowe, contemporâneo de Shakspeare, também defendeu que
Jesus e João Evangelista mantiveram relação amorosa. Eu
próprio encontrei no Arquivo da Torre do Tombo, em Lisboa,
a denúncia contra Gregório de Matos, o maior poeta brasileiro
barroco, o qual, nos finais do século XVII ousou dizer que
"Nosso Senhor Jesus Cristo era sodomita". Diz o manuscrito
que o Boca do Inferno teria usado uma palavra vulgar corrente
na época, provavelmente disse que o Filho de Deus era "fanchono"
ou "puto" - dois termos populares sinônimos de sodomita.
Há outros casos registrados no Santo Ofício de pessoas no
Brasil e em Portugal, que disseram que Jesus e os apóstolos
eram gays.
Portanto,
ao celebrar no ano 2000 o segundo milênio do nascimento
de Jesus Cristo, seria esta uma excelente oportunidade para
o movimento homossexual internacional reivindicar nossa
participação nesta festa maravilhosa, pois há mais de 500
anos os homossexuais reivindicam Jesus como membro de nossa
confraria. Claro que vai haver muito escândalo e protesto,
negativas, contestações e até vingança. Temo mesmo que haja
reações violentas dos cristãos mais fundamentalistas, que
para defender a heterossexualidade de Cristo, serão capazes
de atacar os homossexuais - como aconteceu no episódio de
Zumbi.
Deixar,
contudo, passar o milênio sem provocar esta discussão, seria
perder fantástica oportunidade para um debate em nível mundial
sobre o respeito à homossexualidade, pois se outros deuses,
como Zeus e Oxalá, entre tantos outros, eram andróginos
ou praticantes do homoerotismo, qual o problema se Jesus,
o Filho de Deus, também fosse adepto do amor dos deuses?
Dai aos gays o que é dos gays!
E
se Jesus estivesse vivo, se perguntasse a ele de que lado
gostaria de ficar, do lado dos machões ou do lado das criancinhas
e dos lírios do campo, não tenho dúvida que ficaria da nossa
banda, do lado dos gays!
Sobre o autor
Luiz
Mott, paulistano de nascimento, mineiro de criação é Cidadão
de Salvador por decreto municipal. Doutor em Antropologia,
estudou na USP e na Sorbonne, lecionou na Unicamp, é professor
na Universidade Federal da Bahia. Autor de uma dezena de
livros sobre Inquisição, homossexualidade, Aids, religião
e escravismo, entre eles O Sexo Proibido; Rosa Egipcíaca:
uma santa africana no Brasil; A cena gay em Salvador em
tempos de Aids. Foi o primeiro gay assumido a ser condecorado
como Comendador da Ordem do Rio Branco.
Sobre o livro Crônicas de um Gay Assumido
Neste
livro de crônicas, parte da Coleção Contraluz, Luiz Mott,
o "decano" do movimento gay do Brasil, reconstitui o abrangente
painel da homossexualidade. Misturando experiências pessoais
com o afinado olhar do antropólogo, do militante e fundador
do Grupo Gay da Bahia, o autor desvela hipocrisias, preconceitos
e dá uma lição de resistência à sociedade brasileira. Em
Crônicas de um Gay Assumido, Mott desvenda mitos e verdades
sobre o mundo gay, as tribos sexuais, faz confidências e
promove discussões sobre homofobia e homoerotismo com a
grife, o humor, a ousadia e a sinceridade de um pioneiro
do movimento gay no Brasil. Clique
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