Um
perfil de Montgomery Clift
Quem
é o ator mais bonito do mundo? Existem mil maneiras de responder
esta pergunta: Brad Pitt, ou o galã da novela das oito,
ou o novato Jensen Ackles, que vai entrar para o elenco
de Smallville na próxima temporada, entre outros. Mas o
assunto somente é tão controverso porque o lugar de ator
mais bonito do mundo está em aberto desde que o verdadeiro
merecedor do título morreu em 1966.
O ator mais bonito do mundo chamava-se Montgomery Clift
e nasceu nos Estados Unidos em 1920. Seu pai era um rico
banqueiro e sua mãe era filha de um importante político
da era Lincoln com a neta do Coronel Robert Anderson, um
dos líderes da Guerra Civil. Junto com a irmã gêmea Roberta
e o irmão mais velho Brooks, Edward Montgomery Clift teve
uma infância de muita fartura, inclusive com longas viagens
pela Europa onde a família ficava em luxuosos hotéis.
Com
a crise da bolsa em 1929, os Clift perderam seu dinheiro
e trocaram a sua mansão em Chicago por um apartamento em
New York, onde cinco anos depois Montgomery Clift estreou
como ator na Broadway, onde trabalhou com afinco para construir
uma boa reputação. Montgomery só apareceu pela primeira
vez para o grande público em 1939, quando participou de
uma adaptação para a TV de Hay Fever, popular romance de
Noel Coward. A estonteante beleza física de Monty Clift
fez com que ele recebesse inúmeros convites para atuar em
filmes - mas ele não aceitou nenhum, pois queria estrear
no cinema já como um astro de primeira linha. Os convites
dos estúdios e as recusas de Clift continuaram por nove
anos seguidos, até que em 1948 a Metro o contratou para
estrelar dois filmes: The Search, de Fred Zinnemann, e Red
River, de Howard Hawks. Em Red River, Monty atuou ao lado
de John Wayne, que não resistiu à sua beleza quando o dia
de filmagem terminava. Mas quando o filme foi lançado e
todos os olhos se voltaram para Clift, John Wayne se ressentiu
e afastou-se dele para sempre. The Search recebeu o Oscar
de melhor roteiro e foi indicado em mais quatro categorias,
sendo uma delas a primeira indicação de Montgomery Clift
para melhor ator.
Após
a indicação ao Oscar em sua estréia cinema, Monty foi capa
da revista Time e o genial roteirista e diretor austríaco
Billy Wilder ofereceu a ele o papel principal em Sunset
Boulevard. Monty aceitou a oferta, mas alguns dias depois
rescindiu o contrato e o papel do gigolô Joe Gilles ficou
com William Holden. Sunset Boulevard acabou recebendo 11
indicações ao Oscar, e é até hoje um dos maiores marcos
da história da sétima arte. Porém um homem como Monty Clift
podia dar-se ao luxo de uma decisão errada - ou nem tão
errada assim. No lugar de Sunset Boulevard, ele filmou Um
Lugar ao Sol (A Place in the Sun, de George Stevens) ao
lado de Elizabeth Taylor, que tornou-se sua amiga e que
teve importância fundamental na vida e na carreira de Monty.
Um Lugar ao Sol foi lançado um ano depois de Sunset Boulevard
e ganhou em seis das nove categorias a que foi indicado
ao Oscar - uma delas foi a segunda indicação de Montgomery
Clift para melhor ator.
Monty
trabalhou depois com Alfred Hitchcock, para quem estrelou
o filme I Confess em 1952, e com o neo-realista Vittorio
de Sica, para quem estrelou Quando a Mulher Erra (Indiscretion
of an American Wife) em 1953. Porém a visão que de Sicca
teve da obra era complemente oposta à do produtor David
O. Selznick, que cortou o filme a ponto de lançá-lo nos
cinemas com pouco mais de uma hora de duração. Monty teve
assim seu primeiro fracasso de bilheteria. Foi somente graças
à insistência de Fred Zinnemann que Harry Cohn, chefão da
Columbia, permitiu que Monty ficasse com o papel de Robert
Prewitt em A Um Passo da Eternidade (From Here to Eternity),
enorme sucesso comercial com Frank Sinatra, Burt Lancaster
e Debora Kerr. Fred Zinnemann tinha apreço especial por
Monty desde que trabalhara com ele em The Search, dando
inclusive carta branca para que ele refizesse a maior parte
dos diálogos do seu personagem. Mais uma vez a química entre
Clift e Zinnemann funcionou e o filme recebeu oito dos treze
Oscars a que foi indicado. Monty teve sua terceira indicação
ao Oscar de melhor ator.
Foi também no set de A Um Passo da Eternidade que Monty
concedeu uma entrevista para a colunista brasileira Dulce
Damasceno de Brito, correspondente dos Diários Associados
e da revista O Cruzeiro. Em seu livro Hollywood Nua e Crua,
Dulce conta que Monty concedeu a entrevista agachado ao
seu lado, pois cedeu a ela a única cadeira disponível no
local. No livro, Dulce chama atenção para a amabilidade
de Monty, e elogia sua beleza, talento e simpatia. Mas o
futuro preparava uma armadilha para nosso herói. Em 1956,
enquanto filmava Raintree County, de Edward Dmytryk, Monty
bateu o carro quando tentava sair bêbado de uma festa promovida
por Elizabeth Taylor, sua parceira no filme. Foi a própria
Elizabeth que correu para tirá-lo das ferragens, salvando-lhe
a vida ao impedir que ele se engasgasse com seu próprio
sangue e dentes quebrados. A filmagem foi interrompida por
dois meses e Monty recuperou-se rapidamente, mas este foi
o início de sua dependência de drogas, estimulantes e barbitúricos.
Em 1992 a banda R.E.M. homenageou Montgomery Clift com a
música Monty Got a Raw Deal, do disco Automatic For The
People. Uma estrofe inclusive descreve a cena do acidente
de carro em que Elizabeth Taylor correu para salvá-lo, e
a música fala de como Monty muitas vezes foi tratado injustamente.
Na verdade, Monty sofria de depressão e a dependência química
alterou de tal forma o seu comportamento que em pouco tempo
nenhum produtor queria contratá-lo. Foi apenas por influência
de Elizabeth Taylor que Monty foi escolhido em 1959 para
estrelar a versão cinematográfica da peça De Repente no
Último Verão (Suddenly, Last Summer), de Tennesse Williams.
Durante as filmagens, o diretor Joe Mankiewicz tentou por
várias vezes demitir Monty - mas Elizabeth Taylor ameaçou
abandonar as filmagens caso isto acontecesse. O filme foi
um sucesso, fazendo o diretor Elia Kazan convidar Monty
para estrelar Wild River, lançado no final de 1960.
Monty
parecia recuperado e no ano seguinte o diretor John Huston
o escalou para estrelar Os Desajustados (The Misfits) ao
lado de Clark Gable e Marilyn Monroe. O filme tornou-se
um dos grandes marcos do cinema, porém mais pelas histórias
de bastidores do que pelo mérito artístico. Escrito pelo
dramaturgo Arthur Miller, que estava casado com Marilyn
na época, o filme conta a história de uma mulher divorciada
e sua relação com três homens. Era óbvio que cada personagem
representava um marido que Marilyn teve na vida real: Guido,
vivido por Eli Wallach, era seu primeiro marido, quando
ela ainda era Norma Jean. Perce, personagem de Clift, representava
Joe Dimagio. E Gay, personagem de Clark Gable, representava
o próprio Arthur Miller. O casamento deles estava no fim
e Marilyn sentiu-se tremendamente ofendida com o filme e
com a personagem que era obrigada a interpretar. Marilyn
passou então a chegar para trabalhar bêbada e drogada, e
encontrou em Monty um companheiro. As cenas em que eles
contracenavam tiveram que ser refeitas dezenas de vezes,
e atrasos e brigas eram constantes. Clark Gable, já visivelmente
consumido pela bebida, morreu do coração poucos dias após
o fim das filmagens, inclusive deixando Marilyn e Monty
sentindo-se culpados pelos intermináveis problemas que causavam
no set. Mesmo assim, o diretor John Huston quis continuar
trabalhando com Monty, e o contratou para estrelar a cinebiografia
de Sigmund Freud. O filme foi feito, e Montgomery Clift,
John Huston e o estúdio Universal acabaram nos tribunais
em uma disputa sobre quem deveria arcar com os custos da
produção constantemente atrasada - mas de qualquer maneira,
o filme já estava sob a mira da imprensa sensacionalista
desde o início. Afinal, o galã Monty Clift dormiu com um
repórter que foi entrevistá-lo na casa de John Houston um
pouco antes de as filmagens começarem, e o assunto foi mais
do que aproveitado pela mídia.
Na época de Montgomery Clift, era de praxe que atores homossexuais
se casassem com pessoas do sexo oposto. Mas Monty sempre
foi fiel a si mesmo. Durante sua longa amizade Elizabeth
Taylor, ela muitas vezes tentou convencê-lo de que eles
deveriam se casar. Marilyn Monroe também declarou publicamente
que Monty era o único homem que ela realmente queria levar
para a cama mas não conseguiu. Mas Monty não precisava fingir
que gostava de mulheres. Por onde quer que ele fosse, legiões
de homens se jogavam aos seus pés. De roteiristas a cameramen,
de jornalistas a executivos dos estúdios, ninguém resistia
à sua beleza. Entre os colegas, além de John Wayne os casos
mais notáveis de Monty foram com os galãs Cary Grant, James
Dean, Rock Hudson e Tyrone Power.
A
quarta indicação de Montgomery Clift ao Oscar veio em 1962
com Julgamento em Nuremberg (Judgment at Nuremberg, de Stanley
Kramer), nomeado em 11 categorias. Pelo papel de uma testemunha
que aparece na tela por dez minutos, Monty foi indicado
a melhor ator coadjuvante. Mas os seus problemas com álcool,
drogas e depressão se agravaram, e Monty ficou então afastado
do cinema por cinco anos. Novamente foi a amiga Elizabeth
Taylor que o ajudou, convencendo John Huston a contratar
Monty para o papel principal em Reflections in a Golden
Eye. A volta de Monty ao cinema em grande estilo foi alardeada
pela mídia, e como Elizabeth estava ainda filmando A Megera
Domada (Taming of the Shrew, de Franco Zerifelli) e a produção
do filme de John Huston a esperava, Monty conseguiu o papel
principal em The Defector, de Raoul Lévy.
No
dia 23 de julho de 1966, alguns dias após o término das
filmagens de The Defector, Elizabeth Taylor recebeu um telefonema
de Lorenzo James, na época casado com Monty. Lorenzo telefonou
para dizer que Monty havia morrido devido a problemas cardíacos
agravado pelo abuso de substâcias químicas. Elizabeth nunca
mais estelaria um filme com seu amigo. Aos 46 anos de idade,
o ator mais bonito do mundo foi embora para sempre.
Agradecimento a Ricado Rocha pela ajuda com o texto.
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