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  CINEMA
O ator mais bonito do mundo
19/09/2004
-

Um perfil de Montgomery Clift

Quem é o ator mais bonito do mundo? Existem mil maneiras de responder esta pergunta: Brad Pitt, ou o galã da novela das oito, ou o novato Jensen Ackles, que vai entrar para o elenco de Smallville na próxima temporada, entre outros. Mas o assunto somente é tão controverso porque o lugar de ator mais bonito do mundo está em aberto desde que o verdadeiro merecedor do título morreu em 1966.

O ator mais bonito do mundo chamava-se Montgomery Clift e nasceu nos Estados Unidos em 1920. Seu pai era um rico banqueiro e sua mãe era filha de um importante político da era Lincoln com a neta do Coronel Robert Anderson, um dos líderes da Guerra Civil. Junto com a irmã gêmea Roberta e o irmão mais velho Brooks, Edward Montgomery Clift teve uma infância de muita fartura, inclusive com longas viagens pela Europa onde a família ficava em luxuosos hotéis.

Com a crise da bolsa em 1929, os Clift perderam seu dinheiro e trocaram a sua mansão em Chicago por um apartamento em New York, onde cinco anos depois Montgomery Clift estreou como ator na Broadway, onde trabalhou com afinco para construir uma boa reputação. Montgomery só apareceu pela primeira vez para o grande público em 1939, quando participou de uma adaptação para a TV de Hay Fever, popular romance de Noel Coward. A estonteante beleza física de Monty Clift fez com que ele recebesse inúmeros convites para atuar em filmes - mas ele não aceitou nenhum, pois queria estrear no cinema já como um astro de primeira linha. Os convites dos estúdios e as recusas de Clift continuaram por nove anos seguidos, até que em 1948 a Metro o contratou para estrelar dois filmes: The Search, de Fred Zinnemann, e Red River, de Howard Hawks. Em Red River, Monty atuou ao lado de John Wayne, que não resistiu à sua beleza quando o dia de filmagem terminava. Mas quando o filme foi lançado e todos os olhos se voltaram para Clift, John Wayne se ressentiu e afastou-se dele para sempre. The Search recebeu o Oscar de melhor roteiro e foi indicado em mais quatro categorias, sendo uma delas a primeira indicação de Montgomery Clift para melhor ator.

Após a indicação ao Oscar em sua estréia cinema, Monty foi capa da revista Time e o genial roteirista e diretor austríaco Billy Wilder ofereceu a ele o papel principal em Sunset Boulevard. Monty aceitou a oferta, mas alguns dias depois rescindiu o contrato e o papel do gigolô Joe Gilles ficou com William Holden. Sunset Boulevard acabou recebendo 11 indicações ao Oscar, e é até hoje um dos maiores marcos da história da sétima arte. Porém um homem como Monty Clift podia dar-se ao luxo de uma decisão errada - ou nem tão errada assim. No lugar de Sunset Boulevard, ele filmou Um Lugar ao Sol (A Place in the Sun, de George Stevens) ao lado de Elizabeth Taylor, que tornou-se sua amiga e que teve importância fundamental na vida e na carreira de Monty. Um Lugar ao Sol foi lançado um ano depois de Sunset Boulevard e ganhou em seis das nove categorias a que foi indicado ao Oscar - uma delas foi a segunda indicação de Montgomery Clift para melhor ator.

Monty trabalhou depois com Alfred Hitchcock, para quem estrelou o filme I Confess em 1952, e com o neo-realista Vittorio de Sica, para quem estrelou Quando a Mulher Erra (Indiscretion of an American Wife) em 1953. Porém a visão que de Sicca teve da obra era complemente oposta à do produtor David O. Selznick, que cortou o filme a ponto de lançá-lo nos cinemas com pouco mais de uma hora de duração. Monty teve assim seu primeiro fracasso de bilheteria. Foi somente graças à insistência de Fred Zinnemann que Harry Cohn, chefão da Columbia, permitiu que Monty ficasse com o papel de Robert Prewitt em A Um Passo da Eternidade (From Here to Eternity), enorme sucesso comercial com Frank Sinatra, Burt Lancaster e Debora Kerr. Fred Zinnemann tinha apreço especial por Monty desde que trabalhara com ele em The Search, dando inclusive carta branca para que ele refizesse a maior parte dos diálogos do seu personagem. Mais uma vez a química entre Clift e Zinnemann funcionou e o filme recebeu oito dos treze Oscars a que foi indicado. Monty teve sua terceira indicação ao Oscar de melhor ator.

Foi também no set de A Um Passo da Eternidade que Monty concedeu uma entrevista para a colunista brasileira Dulce Damasceno de Brito, correspondente dos Diários Associados e da revista O Cruzeiro. Em seu livro Hollywood Nua e Crua, Dulce conta que Monty concedeu a entrevista agachado ao seu lado, pois cedeu a ela a única cadeira disponível no local. No livro, Dulce chama atenção para a amabilidade de Monty, e elogia sua beleza, talento e simpatia. Mas o futuro preparava uma armadilha para nosso herói. Em 1956, enquanto filmava Raintree County, de Edward Dmytryk, Monty bateu o carro quando tentava sair bêbado de uma festa promovida por Elizabeth Taylor, sua parceira no filme. Foi a própria Elizabeth que correu para tirá-lo das ferragens, salvando-lhe a vida ao impedir que ele se engasgasse com seu próprio sangue e dentes quebrados. A filmagem foi interrompida por dois meses e Monty recuperou-se rapidamente, mas este foi o início de sua dependência de drogas, estimulantes e barbitúricos.
Em 1992 a banda R.E.M. homenageou Montgomery Clift com a música Monty Got a Raw Deal, do disco Automatic For The People. Uma estrofe inclusive descreve a cena do acidente de carro em que Elizabeth Taylor correu para salvá-lo, e a música fala de como Monty muitas vezes foi tratado injustamente. Na verdade, Monty sofria de depressão e a dependência química alterou de tal forma o seu comportamento que em pouco tempo nenhum produtor queria contratá-lo. Foi apenas por influência de Elizabeth Taylor que Monty foi escolhido em 1959 para estrelar a versão cinematográfica da peça De Repente no Último Verão (Suddenly, Last Summer), de Tennesse Williams. Durante as filmagens, o diretor Joe Mankiewicz tentou por várias vezes demitir Monty - mas Elizabeth Taylor ameaçou abandonar as filmagens caso isto acontecesse. O filme foi um sucesso, fazendo o diretor Elia Kazan convidar Monty para estrelar Wild River, lançado no final de 1960.

Monty parecia recuperado e no ano seguinte o diretor John Huston o escalou para estrelar Os Desajustados (The Misfits) ao lado de Clark Gable e Marilyn Monroe. O filme tornou-se um dos grandes marcos do cinema, porém mais pelas histórias de bastidores do que pelo mérito artístico. Escrito pelo dramaturgo Arthur Miller, que estava casado com Marilyn na época, o filme conta a história de uma mulher divorciada e sua relação com três homens. Era óbvio que cada personagem representava um marido que Marilyn teve na vida real: Guido, vivido por Eli Wallach, era seu primeiro marido, quando ela ainda era Norma Jean. Perce, personagem de Clift, representava Joe Dimagio. E Gay, personagem de Clark Gable, representava o próprio Arthur Miller. O casamento deles estava no fim e Marilyn sentiu-se tremendamente ofendida com o filme e com a personagem que era obrigada a interpretar. Marilyn passou então a chegar para trabalhar bêbada e drogada, e encontrou em Monty um companheiro. As cenas em que eles contracenavam tiveram que ser refeitas dezenas de vezes, e atrasos e brigas eram constantes. Clark Gable, já visivelmente consumido pela bebida, morreu do coração poucos dias após o fim das filmagens, inclusive deixando Marilyn e Monty sentindo-se culpados pelos intermináveis problemas que causavam no set. Mesmo assim, o diretor John Huston quis continuar trabalhando com Monty, e o contratou para estrelar a cinebiografia de Sigmund Freud. O filme foi feito, e Montgomery Clift, John Huston e o estúdio Universal acabaram nos tribunais em uma disputa sobre quem deveria arcar com os custos da produção constantemente atrasada - mas de qualquer maneira, o filme já estava sob a mira da imprensa sensacionalista desde o início. Afinal, o galã Monty Clift dormiu com um repórter que foi entrevistá-lo na casa de John Houston um pouco antes de as filmagens começarem, e o assunto foi mais do que aproveitado pela mídia.

Na época de Montgomery Clift, era de praxe que atores homossexuais se casassem com pessoas do sexo oposto. Mas Monty sempre foi fiel a si mesmo. Durante sua longa amizade Elizabeth Taylor, ela muitas vezes tentou convencê-lo de que eles deveriam se casar. Marilyn Monroe também declarou publicamente que Monty era o único homem que ela realmente queria levar para a cama mas não conseguiu. Mas Monty não precisava fingir que gostava de mulheres. Por onde quer que ele fosse, legiões de homens se jogavam aos seus pés. De roteiristas a cameramen, de jornalistas a executivos dos estúdios, ninguém resistia à sua beleza. Entre os colegas, além de John Wayne os casos mais notáveis de Monty foram com os galãs Cary Grant, James Dean, Rock Hudson e Tyrone Power.

A quarta indicação de Montgomery Clift ao Oscar veio em 1962 com Julgamento em Nuremberg (Judgment at Nuremberg, de Stanley Kramer), nomeado em 11 categorias. Pelo papel de uma testemunha que aparece na tela por dez minutos, Monty foi indicado a melhor ator coadjuvante. Mas os seus problemas com álcool, drogas e depressão se agravaram, e Monty ficou então afastado do cinema por cinco anos. Novamente foi a amiga Elizabeth Taylor que o ajudou, convencendo John Huston a contratar Monty para o papel principal em Reflections in a Golden Eye. A volta de Monty ao cinema em grande estilo foi alardeada pela mídia, e como Elizabeth estava ainda filmando A Megera Domada (Taming of the Shrew, de Franco Zerifelli) e a produção do filme de John Huston a esperava, Monty conseguiu o papel principal em The Defector, de Raoul Lévy.

No dia 23 de julho de 1966, alguns dias após o término das filmagens de The Defector, Elizabeth Taylor recebeu um telefonema de Lorenzo James, na época casado com Monty. Lorenzo telefonou para dizer que Monty havia morrido devido a problemas cardíacos agravado pelo abuso de substâcias químicas. Elizabeth nunca mais estelaria um filme com seu amigo. Aos 46 anos de idade, o ator mais bonito do mundo foi embora para sempre.



Agradecimento a Ricado Rocha pela ajuda com o texto.

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