Foi assim: há coisa de dois anos chegou-nos o convite “programe-se para vir ao meu aniversário de 50 anos e passar o Réveillon conosco, em Buenos Aires”. Era uma intimação de Gustavo, ainda morando em Berlim, quando jantávamos no Max & Morris, um dos templos de “somente berlinenses”, um restaurante de culinária típica daquela região alemã. No meio daquela comida divina, boa música, gente bonita, ótima conversa, muitas gargalhadas, a notícia de que estariam de mudança para a Argentina em mais algum tempo. Sua linda e poderosa esposa, a berlinense Barbara Kroner, iria assumir o comando da Câmara de Comércio Alemão da Argentina.
Como amigo a gente não somente guarda do lado esquerdo do peito, amigo a gente segue pela vida, não precisou mais palavras. Ficou tudo agora na espera da grande data, o final de 2011.
Gustavo Castro é gaúcho, brasileiro e também uruguaio, natural de Santana do Livramento, fronteira entre os dois países. É artista plástico, premiadíssimo, e assina suas obras como Gustavo da Liña. Ele me contou um dia, que um de seus professores avisou a todos que deviam criar um pseudônimo para assinar seus trabalhos. Sua mente genial rapidamente lembrou-se de como muita gente da região se referia ao povo daquela cidade de fronteira como “o pessoal da linha”, e então adotou este nome artístico.
Depois do Natal em família, nos encontramos, meu parceiro e eu, no aeroporto de Brasília, voamos juntos para Congonhas e no dia seguinte tomamos nosso vôo direto para Buenos Aires.
Buenos Aires é uma cidade que adoro e freqüento, sempre que possível, faz muitos anos.
O sol brilhava forte, sem sinal de chuva; o calor do verão era muito agradável e quando paramos em frente ao nosso hotel, o Urbanica Suites, perto da casa desses amigos, no bairro de Belgrano, numa zona quase que exclusivamente residencial, onde nunca havia ficado antes, foi uma festa magnífica.
Nessa noite tivemos um jantar em família, em sua casa linda de três andares, onde seus quadros dão um toque especial aos espaços preenchidos com pouco móveis.
Um jardim florido e muito bem cuidado, onde eras cuidadosamente aparadas recobrem todas as paredes do quintal da casa, é dominado por uma varanda acolhedora, com degraus em pedras brancas que levam até a piscina de águas calmas e convidativas. Gustavo nos preparou uma salada de folhas e tomate, com complementos vários, e serviu-a com as típicas e maravilhosas empanadas argentinas, que ele descobriu em “um restaurante muito especial aqui mesmo no bairro”, explicou.
No dia seguinte nos deliciamos passeando pela Plaza de Mayo, onde se planta a Casa Rosada, a Catedral, uma outra igreja secular, e completando a volta, vários prédios do poder público, que emolduram este lugar que tem sido o palco de muitos eventos históricos da nação.
Caminhando rumo ao rio chegamos a Puerto Madero, um dos principais pontos da vida portenha, onde bares e restaurantes se perfilam olhando às águas tranquilas que correm para o mar, e a todos os edifícios modernos que foram crescendo desde que aquela área foi totalmente reformada e urbanizada no final dos anos ‘80. Almoçamos no Restaurante Bahia Madero, um lugar para desfrutar das delícias da carne argentina, orgulho de todo aquele povo, que a descreve como “a melhor carne do mundo”. E por que não?
Um taxi rapidamente nos levou ao El Caminito, lugar muito especial, criado inicialmente por artistas, situado em La Boca, chão do famoso time de futebol “El Boca Juniors” e onde se ergue “La Bombonera”, estádio onde Maradona foi coroado rei dos argentinos, hoje um dos pontos turísticos mais importantes de Buenos Aires.
No meio daquele mar de gente, todos ou quase todos falavam português do Brasil, com seus inúmeros sotaques de todos os cantos do país. O mesmo se repetia na movimentada Rua La Florida, nos jardins ou no cemitério Recoleta, na Floralis Genérica, nos parques monumentais de Palermo, no Jardim Japonês, nos bares e restaurantes, mesmo os que normalmente são frequentados apenas por portenhos, onde Patrícia Tomasini e sua filha Carolina, uma amiga, nos levou para jantar ao Ceviche numa noite especial. Não importava se estávamos caminhando pela Avenida 9 de Julio, apreciando o Obelisco, símbolo da cidade, se encantando com o Teatro Colón, sentado num dos muitos cafés de calçadas, ou vasculhando antiquários das ruas antigas de San Telmo, ou num ônibus qualquer, numa lojinha simples, na elegante Galeria Pacífico; não fazia diferença, Buenos Aires havia sido invadida “por los vecinos del norte”, que sempre adoram esta cidade.
A sexta-feira era o dia do “autêntico churrasco gaúcho” que o Gustavo fazia questão de oferecer para nosso grupo de amigos, tão especiais, todos. A casa estava linda. E a mesa em tons de branco e lilás, com as flores do mesmo tom era de uma elegância festiva.
Ele começou bem cedo, como manda o ritual… foi apanhar a carne logo ao amanhecer, “num açougueiro que descobri aqui no bairro e que é infalível”. As brasas foram feitas como se deve, aos poucos “para os lados das carnes ficarem iguais, tudo na mesma temperatura e cozimento perfeito”, e as carnes colocadas sem sal – “o sal resseca a carne, que só deve ser colocado depois e ao gosto de cada um”, explicava – umas primeiro que as outras, dependendo do tempo do cozimento, pois “o assado tem que ficar perfeito”.
O vinho perfeito, um Malbec da terra, as saladas variadas de muitas cores, preparadas com todo o carinho pela Barbara, com a ajuda de alguns amigos. Tudo levou o tempo certo, do jeito certo, na hora certa e comemos com muito prazer e com tanta alegria que fez deste momento uma tarde inesquecível.
A Festa do Branco, um grupo muito eclético e divertido se espalhava pelas salas, varanda, jardins, embalados pela música certa, orquestrada por um amigo que “tecnologicamente” comandava tudo. Os garçons, vestidos em negro, passavam os petiscos, ofereciam bebidas diversas, e claro, muito “espumante autenticamente argentino”, uma delícia.
A alegria ia tomando conta de tudo e de todos. Alguém exclamou: “faltam cinco”. Gustavo tomou a palavra e muito emocionado, falou deste grupo de amigos tão queridos, que tinha cruzado oceanos, todo o continente americano de norte a sul para estar ali com ele e sua família para festejar os seus 50 anos e esta noite de Réveillon. Barbara completou suas palavras. Os filhos se abraçaram. Os amigos também.
E, de repente, o inesperado mas sempre tradicional pipocar de fogos de artifício foi se alastrando pela vizinhança, pelo bairro, pela cidade e todos, com uma grande euforia cheia de esperança, abraçavam-se e beijavam-se, desejando-se Feliz Ano Novo, no idioma que a cada um melhor tocasse o coração.
Coisa de amigo ninguém explica: simplesmente se vive em uma grande alegria. Feliz 2012!
