Incha Allah!
E depois de montanhas, cidades ca
maleônicas, palmeiras, areias, camelos, desertos, sol forte, lua cheia, caminhos e estradas de todas as formas, muito calor e ensaio de frio, e até passar por uma cidade com jardins com muitas flores, chegamos a Fés: a terra da novela “O Clone”.
A estrada nos leva a entrar pela parte nova e moderna da cidade que se confunde com qualquer grande cidade, de qualquer parte do mundo nos dias de hoje. Muito movimento, congestionamento de trânsito, semáforos, buzinas, calçadões separando as grandes avenidas, lojas, luminosos, gente de um lado para o outro.
Depois uma curva, rotunda, e outra ladeira e mais uma curva… e, finalmente, vamos chegando às ruas mais estreitas, deparando-nos com uma iluminação dourada, edificações mais antigas, arcos, portas altas, portais e mais arcos, e então paramos: estávamos na Medina de Fés, , cidade medieval – Patrimônio da Humanidade -, fundada pelos árabes vindos da Arábia Saudita no século VIII (789 DC). Cidade que se embeleceu sob forte influência dos mouros expulsos da Península Ibérica, e que foi se transformando com todos os povos ali chegados, muitos e muitos povos que a invadiram, passando ao domínio francês em 1912, para tornar-se parte do Marrocos independente no ano de 1956.
Labirintos formam as ruas desta Medina espetacular, monumental, que impressiona desde o instante em que se sobe e desce suas ladeiras ou escadarias. Tudo em Fés parece mais grandioso, mais impressionante que o que se vê e sente, até mesmo em Marrakesh. Mas não vale comparar, pois cada uma dessas cidades guarda o encanto, a magia, a beleza e a grandeza da história do povo árabe do norte da África.
A surpresa maior, porém, surgiu ao nos abrirem a porta do Riad Dar Roumana e adentrarmos o casarão que mais parece um palácio, algo inesperado no meio das ruelas desobedientes. Um teto muito alto, paredes revestidas de gesso entalhado a mão, relevos em madeiras recortadas em formatos e figuras magníficas, janelas rodeando o átrio fidalgo, com pisos e paredes arrematados por mosaicos artesanais, e sua fonte central, com o ruído confortável da água que cai aos poucos, refrescando o ambiente e dando vida às flores e plantas que ornam os vasos característicos desta casa de silêncio e paz. Jennifer, uma americana natural de Indiana, que aportou em Fés há mais de 10 anos, é uma mulher garbosa, muito bonita, que foi quem descobriu esta joia e passou quatro anos restaurando cada detalhe, é quem nos conta. São apenas cinco suítes, todas muito amplas, decoradas ao estilo da terra, com muito conforto e bom gosto. Grande Chef, ela também oferece aos seus hóspedes um cardápio-degustação, único, mas de sabor instigante, requintado, que nos fez querer repetir nas duas noites em que alí ficamos. Recomendo.
A Suíte Yasmina, que nos reservou nosso amigo Peter, é majestosa. Acho que esta é a palavra que nos ocorre para descrever esse espaço muito amplo, de tetos altíssimos, com uma varando que dá vista para parte da Medina e suas muitas torres das várias mesquitas existentes nesta cidade medieval. É um loft requintado, elegante, com sofás amplos e de tecidos claros que embelezam ainda mais os tapetes coloridos, contrastando com as colunas da cama de dorsel, de cortinas brancas, muito finas, que realçam a realeza do lugar. Três janelas de estilo mouro abrem-se para o pátio central, um banheiro amplo, uma jacuzzi convidativa… um luxo só.
Levantamos cedo, e o nosso café da manhã já estava servido na terrazza que fica na pen house desse hotel-palácio. Outra vez, muita simplicidade e requinte, realçando o sabor das frutas, dos pães, da geléias, sucos e pratos servidos para o nosso Bom Dia. Porcelana e talheres à altura.
Nabil, o nosso guia, chegou pontualmente. Muito prestativo, começou a nos contar histórias da cidade; como um grande professor, foi nos falando das mesclas de culturas que foram chegando, se apoderando, se amalgamando e construindo a cidade que, sem dúvida, é das mais intrigantes do Marrocos. Difícil é defini-la ou descrevê-la.
A Medina é imensa: vielas, ruelas, becos, casarões que abrigam a universidade mais antiga do mundo, o primeiro hospital psiquiátrico a ser fundado na história do homem, a Mesquita de “Al Kirawaine”, considerada una das maiores e mais antigas da África. Construção de beleza inigualável, com seus amplos espaços, arcos monumentais, colunas orando aos céus e uma fervorosa história da fé… Difícil descrever.
Tudo está determinadamente setorizado: as ruelas dos tecidos, os becos dos alfaiates e costureiras. As carpintarias com seus trabalhos em madeira entalhada, a ala das alegorias para casamentos e grandes festas, as muitas lojinhas de doces e quitutes. E segue-se uma infinidade de locais onde se encontram artigos religiosos, depois móveis, os trabalhos em metal, armas e ferragens, perfumes, trabalhos em couro, cerâmicas e até uma loja de antiguidades das mais requintadas, com uma variedade indescritível de objetos e peças seculares.
No meio deste zig-zague, entre botequins, mercearias, lojas, restaurantes, bares improvisados, pequenas praças e pátios, de repente surgem as famosas cacimbas de cores, onde se lava e tinge as muitas peles de vaca, ovelha, cabra, camelos…, um dos principais cartões postais do país. Jaquetas, calçados e roupas em couro são feitos à medida e ao estilo do cliente, sendo entregues no hotel no mesmo dia. Nabil sabia tudo, e foi nos contando como se tivesse vivido cada momento desta história.
Tomamos uma van que nos levou ao topo das montanhas que rodeiam e formam o vale, para encontrar resquícios de construções romanas, uma fortaleza que eterniza a presença da cultura portuguesa no lugar, até chegarmos ao Palácio Real, circundado por uma muralha de pedras enorme, percorrendo todos os lados da cidade. Portas de metal dourado, finamente trabalhadas, brilham de dentro dos arcos pontiagudos e marcantes do característico estilo arquitetônico.
Cruzando a rua entramos ao Bairro Judeu, onde ainda hoje convivem uma Mesquita de frente para a Sinagoga, construções milenares que falam das semelhanças e alianças destes povos, que de repente já não se entendem, mas em Fés, dão-nos a impressão de convivência harmoniosa.
Foi um dia inesquecível, onde as pernas nem reclamaram, os pés não notaram, o paladar ficou celebrado no Restaurante Nejjarine, que fica bem no meio de toda esta história. E assim, quando voltamos ao Riad Dar Roumona nos enchemos de uma saudade enorme, pois deveríamos ter planejado mais dias nesse lugar tão encantador, das mil e uma noites…
A saudade sempre é boa para nos deixar um compromisso de volta.
Assim é Fés.
Não foi à toa que Glória Peres resolveu dar luz à Jade naquela cidade.
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Riad Dar Roumana: www.darroumana.com
Fotos de Fés:
Guia: Nabil – Tel. 0661675414 (Recomendo muito se forem a Fés)
